Os últimos telegramas da Alemanha informam que o governo de Hitler mandou prender mais de 150 sacerdotes católicos e centenas de membros das associações católicas, acusados de conspirar contra a segurança do Estado.

Eis aí uma notícia que nos leva a meditar.

Com o exato senso de equilíbrio que deve caracterizar os integralistas e o roteiro político já traçado por mim aos camisas-verdes, no artigo desta folha, intitulado “Carta de Natal e Fim de Ano”, procuro examinar esta gravíssima questão, deduzindo dos acontecimentos que se desenrolam na Alemanha a lição útil para nós, que desejamos criar um Estado Novo, o Estado Forte, mas, principalmente o Estado Cristão.

Que atos teriam praticado os católicos germânicos para incorrer na cólera do Estado Hitlerista? Cumpre aqui, para sermos justos, levantar várias perguntas:

1° — Teria o Estado Alemão, no seu objetivo de elevar ao máximo a mística nacionalista e o preconceito das “raças superiores”, ultrapassado os limites de seus direitos, atingindo, no campo da educação moral e física, os princípios da intangibilidade da “pessoa humana” e da “família”, projeção natural da “pessoa humana”?

2° — Se o Estado Alemão não ultrapassou esses limites, teriam as associações católicas ultrapassado o campo de suas atividades morais e espirituais, imiscuindo-se nas lutas políticas?

Eis duas perguntas que nos levam a considerar os gravíssimos perigos que representam para uma Nacionalidade as atitudes do Estado, ferindo o mais sagrado princípio da liberdade, que é a liberdade de consciência, a intangibilidade da pessoa humana, a invulnerabilidade religiosa da Família; ou as atitudes das autoridades eclesiásticas, no caso de, portando-se o Estado nos estritos limites que lhe impõem os deveres para com Deus, não dando motivos para por censura por parte da consciência religiosa, assumirem elas o papel de meros instrumentos da liberal-democracia e das lojas maçônicas, ainda que de um modo inconsciente.

No caso da Alemanha, não tenho dúvidas (pelo que tenho lido nos livros nazistas, notadamente no livro de Hitler, “Minha Luta”, e pelo que eu tenho deduzido das medidas e iniciativas governamentais) que o governo hitlerista está, sem dúvida nenhuma, infringindo as mais sagradas leis naturais e humanas e dando lugar a que os católicos, ciosos do livre arbítrio e da intangibilidade da personalidade do homem e de sua família, se rebelem contra o Estado.

O Hitlerismo, que proclama os seus princípios fantasiosos racistas e as razões históricas da Nação Alemã, em nome da qual desencadeia a guerra aos judeus, tenho para mim que se ache, inconscientemente orientado pelo próprio judaísmo, cujas raízes no Estado Nacional-Socialista revelam-se a cada passo.

O ascetismo, a mística, a super-humanização do tipo “Führer”, a sua divinização ao ponto de o considerarem, os mais exaltados, a encarnação de Odin, exprime um artificialismo político, que foge de toda a base de equilíbrio da razão humana, uma vez que não tem o lastro religioso ou o alicerce de uma vocação espiritual específica. Em torno do “Führer”, longe de se encontrar o meio religioso, encontra-se o ambiente de um nacionalismo pagão, o clima das ressurreições olímpicas de Juliano, o apóstata. O parágrafo “socialismo”, lado simpático deste movimento que arrastou tantos proletários, passou para um segundo plano, proclamando a política exclusivamente nacionalista. Esse nacionalismo é uma continuação de Bismarck e um novo capítulo a acrescentar no estado de espírito que assinalou as vésperas da Grande Guerra.

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Não se pode negar ao Nacional-Socialismo, ainda que ele se haja desviado da linha pura do proletarismo e da revolução social para o ritmo de uma orientação baseada no prestígio da indústria pesada, o verdadeiro milagre que foi a transformação da Alemanha, de país humilhado pelos seus adversários, em Nação respeitada que readquiriu a sua voz no concerto dos povos.

Esse esforço, porém, que dignifica um povo, tenho a impressão de que está sendo explorado por elementos semitas habilmente infiltrados, no sentido de desvirtuá-lo, aparecendo Hitler e a Alemanha, perante o mundo, sob um aspecto antipático. Havendo censura rigorosa no Reich, não se compreende, por exemplo, que as megalomanias de Rosenberg possam ter circulação em pleno século XX. Há nisso, positivamente, falta de senso de equilíbrio, sentido de proporções, de respeito ao espírito cristão da Nacionalidade.

O caso da esterilização foi outro a revelar o sentido materialista da vida, sentido esse que, nunca, jamais, em tempo algum, conseguiu dar um conteúdo de moral verdadeira e, muito menos, traduzir-se em expressões de ascetismo, que só pode ser compreendido como um desvio, cujas consequências ninguém ainda podem prever.

O Estado tem seus limites, como a personalidade humana tem seus limites. Do mesmo modo, a Religião tem seus limites. Só a inspiração cristã mantém relações e os equilíbrios perfeitos.

Fora do cristianismo, só pode imperar a violência.

Agora, se o Estado se conserva na sua linha precisa; se o Estado em matéria de educação estabelece um acordo justo entre os seus interesses nacionais e os interesses espirituais da religião; nesse caso toda e qualquer autoridade religiosa que se insurgir contra ele, não estará fazendo obra espiritual, porém, politicagem, e da mais barata.

Nós, integralistas, que somos coisa absolutamente diferente do nazismo e do fascismo, não nos cansamos de dizer que nosso fundamento é o fundamento cristão. Repetimos mil vezes que jamais caminharemos num rumo pagão, jamais deixaremos de ser um movimento, preliminarmente espiritual, em seguida, social-revolucionário, e, sustentando aqueles dois rumos, colocamos os imperativos da nacionalidade dentro da qual encontramos ainda as mais sólidas tradições de cristianismo.

Para criar uma raça forte, eugenicamente apta, enérgica, nacionalista, digna, audaz, não precisamos hoje em nossa propaganda e amanhã em nosso governo, ferir os sentimentos religiosos do povo brasileiro, antes pelo contrário, será estribando-nos nele que conseguiremos criar o Estado Integral.

A luta que se esboça na Alemanha, entre católicos e hitleristas, oferece oportunidade para meditarmos no pensamento profundamente cristão que nos inspira, o respeito pelos prelados e sacerdotes da nossa terra; estes, com alta visão política, que não deve faltar na hora presente, evitando que atitudes impensadas de alguns venham lançar os germes de uma animosidade que seria um crime perante a Nação e perante Deus.

Pois será da mútua compreensão e do mútuo entendimento entre os detentores da autoridade religiosa e da autoridade civil que conseguiremos fazer alguma coisa de útil para nossa Pátria.

Plínio Salgado
“A Offensiva”, 14 de fevereiro de 1936.

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