No artigo tão luminoso na apreciação dos fatos históricos e tão magnânimo na consideração da minha pessoa, com que um dos mais brilhantes jornalista do nosso país registrou nas páginas da “Idade Nova” o meu regresso da Europa em princípios deste mês, há uma observação que me serviu de tema para muito meditar. Nota aquele meu querido amigo que, já em 1931, em carta que dirigi a Augusto Frederico Schmidt, dizia eu que urgia, depois de um século da Revolução Francesa, uma nova proclamação dos direitos do homem.

Realmente, a minha preocupação, ao iniciar a campanha política hoje integrada nas paginas da História Brasileira, foi, não a sociedade, a Nação, o Estado, mas o próprio Homem. Proclamar os seus direitos me parecia naquele tempo o mais alto e mais nobre dos ideias. Humilhado, ofendido, degradado por todos os regimes políticos, fosse o totalitarismo do Estado absorvente, fosse o totalitarismo da liberdade sem freios de que abusavam os maus, o Homem precisava afirmar-se, precisava reivindicar os seus direitos sagrados. Partindo desse pensamento, tratei de construir um sistema político novo, em tudo diferente a todos do mundo, no qual a criatura humana fosse vista e considerada na sua integralidade, e não sob os prismas pelos quais a interpretavam. Revoltava-me o conceito de “homem econômico” do socialismo marxista ou do “homem-parcela-nacional” do estatismo totalitário nacionalista.

Nos anos que se seguiram depois da minha proclamação dos direitos do Homem, a minha atividade social pode dizer-se que se desenvolveu em dois planos: o político, através do qual, coadjuvado pelos teorizadores do movimento integralista, esquematizei as linhas gerais de um Estado onde o Homem pudesse viver livre e digno, e o moral, através do qual, por minha conta e quase sempre sozinho, concitava a todos os meus companheiros a realizar em si mesmos aquilo que eu chamava “revolução interior”, ou seja, o combate do mal, que reside dentro de cada ser humano, e o aprimoramento das virtudes, a fim de que, havendo homens bons, o conjunto dos homens, que nós chamamos “sociedade” fosse também bom.

Mas o meu movimento, a partir de 1934, teve de tomar a forma de um partido político. Entramos na liça das competições partidárias. O impositivo da luta quotidiana, entre uma infinidade de inimigos que de todos os lados nos atacavam, e os trabalhos de arregimentação e propaganda eleitoral foram levando, pouco a pouco, os que me seguiam, a uma objetividade política cada vez mais empolgante, de sorte que a parte, para mim mais essencial, que era aquela subjetividade, ou transformação interior no sentido das supremas virtudes cristãs, foi ocupando, dia a dia, menores espaços na alma de cada um.

Pretendendo conquistar adeptos e eleitores, os meus correligionários eram obrigados a empregar a maior parte do seu tempo em estudos práticos sobre os problemas nacionais de ordem administrativa, jurídica, pedagógica, econômica, financeira, artística, militar, internacional, a fim de se apresentaram perante os auditórios dos comícios ou das conferências, perfeitamente aparelhados para a conquista das simpatias e da opinião pública. Eu mesmo fui obrigado pelas circunstâncias a produzir discursos e artigos de caráter utilitário, focalizando problemas que interessavam os objetivos práticos da vida brasileira.

Tenho a impressão de que, embora com a melhor e mais pura das intenções patrióticas, nós fomos caindo nos mesmo erros do imediatismo político, que assinala a preocupação de todos os partidos tanto do Brasil como dos demais países. Note-se que eu não emprego aqui a palavra “imediatismo” no sentido pejorativo, no sentido do interesse pessoal ou de grupo, da pressa em atingir o poder, ou os cargos de responsabilidade. Emprego a palavra “imediatismo” para significar, pelo contrário, uma nobre e respeitável preocupação de resolver os problemas mais graves da nossa Pátria.

Nós víamos o povo insatisfeito e desejoso de obter solução a numerosos problemas que se referiam diretamente aos impositivos vitais da nossa agricultura, do nosso comércio, das nossas indústrias, do nosso ensino, da nossa defesa nacional, da nossa justiça; então, sinceramente, nobremente, nos empenhávamos no estudo de cada uma dessas múltiplas questões, e de posse dos nossos planos de reforma, dos nossos projetos, apresentávamo-nos na tribuna ou na imprensa, evidenciando proposições que tínhamos por oportunas e adequadas. Assim se empregaram as elites intelectuais do nosso partido, enquanto os mais companheiros, no afã de atingir ou o poder ou parcelas do poder a fim de por em prática as nossas ideias de salvação nacional, trabalhavam afincadamente no aliciamento de eleitores.

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Para justificar esse nobre imediatismo, tínhamos ainda um imperativo histórico: urgia salvar a própria independência do Brasil ameaçada pelo domínio do comunismo russo, cumpria-nos defender a família, a religião, as tradições mais caras da Pátria contra a ameaça estrangeira de um totalitarismo feroz. Dessa forma, uma terceira preocupação também nobremente imediatista nos empolgou: a de cooperar com as Forças Armadas, com os elementos conservadores da Nação, na vigilância constante sobre os agentes do imperialismo russo.

Essas três atividades, a dos estudos dos problemas nacionais, a da propaganda e arregimentação eleitoral, e a da defesa do país contra o comunismo, absorveram-nos inteiramente no período de 1934 a 1937. A chamada “Revolução Interior” adstringiu-se a uma pequena zona do nosso espírito.

Verdade seja dita que, mesmo circunscrita a uma pequena zona, essa introatividade produziu magníficos efeitos, mantendo um certo teor das atitudes que denunciava, em não pequeno número de companheiros, a intima convicção de que não seria possível conseguir nenhuma reforma saudável para a Nação, sem que primeiro se lograsse uma reforma fundamental no intimo de cada brasileiro.

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A adversidade, que Deus nos enviou como suprema graça, em fins de 1937, veio por em evidência aquilo que ia sendo esquecido no meio da nossa sincera batalha pelo bem do Brasil. Perseveraram os que tinham conseguido modificar-se interiormente. E quando digo perseveraram não me refiro apenas àqueles que assumiram atitudes políticas em desacordo com os sagrados compromissos de honra confessados perante auditórios onde se colheram aderentes mais dignos do que muitos apóstolos que os converteram. Refiro-me mesmo a muitos que, mantendo a fé política, não mantiveram aquele padrão de vida cristã, de ascetismo, de renúncia, de humildade, de pureza e idealismo sem o qual não haverá salvação possível para a nossa Pátria.

Em 1945, ao cessar o grande equivoco, mediante o qual fomos apresentados ao povo brasileiro como totalitários, inimigos da liberdade, traidores da Pátria, eu tinha chegado a uma conclusão importantíssima e decisiva, que foi fruto de longa observa dos regimes, dos homens e dos fatos das consequentes meditações em que me aprofundei. Essa conclusão é a de que os bons governos não dependem de regimes, porém de homens.

Claro está que quando falo “regime” refiro-me a formas de Estados. Faço essa distinção porque um regime do tipo comunista, por exemplo, nunca poderia ser aceito por quem acredita em Deus e nos destinos do homem.

Mas o que eu quero dizer é que o melhor regime deste mundo posto nas mãos de homens maus, há de ser forçosamente mau. Por conseguinte, a felicidade das Nações depende muito mais dos homens do que da formas de governo. Podemos, logicamente, aptar por esta ou aquela forma ou regime, porém isso, de nada valerá se os executores dessa forma ou regime não foram homens bons.

Chegando a essa conclusão, volto, ao cabo de longos anos, à minha preocupação inicial: o Homem, o Ser Humano. Renová-lo é condição fundamental sem cuja efetivação de nada valerá pregarmos as excelências de qualquer regime.

Alga e Ômega, verifico hoje que o Homem, não o Estado, tendo sido minha primeira preocupação de doutrinador, torna-se agora minha nova preocupação.

Não podemos pensar numa nova idade se não pensarmos num novo homem, isto é, o homem que surge das angústias do nosso tempo, inteiramente desiludido de todos os remédios políticos e sociais, e procurando uma nova esperança no fundo de si mesmo.

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