A História do Brasil não começa com Pedro Álvares Cabral no ano de 1500. Tomar como ponto de partida o descobrimento da terra seria, da parte dos brasileiros, abrir mão de três séculos de História que pertencem, num glorioso domínio, a duas Pátrias. Uma Nação é constituída pelo seu corpo material (território) e pela sua alma (a vida comum do grupo humano que lhe deu origem e de onde procede a continuidade da existência).

Uma Nacionalidade pode subsistir sem território, mas não sobrevive sem a permanência de alma coletiva. O caso de Israel, vagueando no deserto, com todas as características de um povo consciente de seu destino, é eloquente e persuasivo. Saindo do Egito, foi na instabilidade de um nomadismo doloroso que a Nação se organizou, codificando a sua moral, ordenando sua vida jurídica, instituindo seus ritos religiosos, estabelecendo suas normas higiênicas, preparando seu Exército. Vinculando-se à Tradição, definiu sua personalidade histórica. Só depois de existir sem território é que buscou a base geográfica onde assentasse o que já estava construído com as estruturas do pensamento oriundo das forças do Espírito.

A Pátria não é apenas o território. A sua ideia procede da intercomunicação entre o sentimento e a paisagem. E quando desse sentimento se originou a consciência de diferenciação do grupo humano no convívio dos demais povos, nesse instante surge a Nação. Esse é o processo comum da formação das Nacionalidades, pois o caso de Israel, sendo único, parece ter sido suscitado pela Providência para nos mostrar que, numa Nação, o mais importante é o Espírito.

Essa a razão pela qual o estudo da História de Portugal, anterior a 1500, é fundamental para o conhecimento da personalidade nacional brasileira. Nem posso compreender que, para defender alguns quilômetros de território (corpo da Pátria) mobilizemos tropas e derramemos nosso sangue, quando, ao mesmo tempo, renunciamos três séculos de História, deixando aos portugueses todas as glórias que igualmente nos pertencem, a nós brasileiro, uma vez que tanto o Brasil como Portugal são filhos legítimos daquela Lusitanidade em que esplenderam “as armas e os barões assinalados” de que nos fala Luís de Camões, sendo este mesmo poeta um patrimônio em que temos parte.

Isto posto, é num período histórico que podemos denominar “da preparação do processo formativo da Nacionalidade Brasileira” que irei buscar uma página das mais oportunas no atual momento de nossa vida de Povo.

***

Ao contemplarmos o panorama prodigioso da Epopeia das Navegações que alvoreceram no século XVI, somos levados a perguntar: como foi possível, a uma pequena população de um milhão de habitantes apertada numa estreita faixa ocidental da península ibérica, lançar-se ao Atlântico, descobrir as ilhas do Mar-Oceano, contornar o continente África, atingir o Mar das Índias, prosseguir até o Extremo Oriente, alcançar do lado ocidental as terras setentrionais do Novo Mundo, descobrir o Brasil, empreender a sua colonização? Que sobre-humanas forças atuaram sobre esse pequeno grupo humano, que ultrapassou avantajadamente as marchas de Alexandre e de Aníbal, as áreas de domínio dos Romanos, as navegações dos gregos, dos fenícios e dos vikings?

Evidentemente, tão formidável esforço, que não se limitou a uma fase passageira, mas prosseguiu no curso do tempo, através de gerações que se sucederam, não podia ter sido obra de improviso. Foi necessário criar um espírito animador.

Mas, quando e como foi criado esse espírito?

Com muita propriedade, o historiador e poeta português João de Castro Osório escreve: “Entre a elevação do Mestre de Avis ao trono de Portugal e a criação firme das bases do Império Marítimo com D. João II e D. Manuel I, está compreendido o período basilar da formação nacional”. E, referindo-se à Era Épica, ou Camoniana, acrescenta: “A direta origem desse primeiro período de apogeu está no século anterior, ou seja, na Época dos Descobrimentos. Foi nesta que um caráter nacional, que já afirmara a sua independência e diferenciação na Península, se foi recriando a si próprio, na ação e no pensamento, engrandecendo-se e subindo para um grande e duradouro destino. Na época dos Descobrimentos, isto é, entre a maioridade dos filhos de D. João I e a subida ao trono de Rei D. João III, é que tudo quando já era português se afirmou e veio à luz plena, e, na ação marítima como nas conquistas de além-mar, na poesia como nas obras de pensamento, reflexivo, na arte como política, se criou uma verdadeira alma nacional”.

Ai temos o “quando”, mas precisamos indagar do “como”. E a esta pergunta, poderemos responder, com firmeza, que o espírito animador dos novos tempos, que surgiram no século XV, foi despertado por quatro Príncipes os quais, por sua vez, despertaram as energias de uma nova geração. E isso demonstra o poder das elites esclarecidas na vida de um povo.

Esses Príncipes, entretanto, deveriam, eles próprios, ter sido formados por alguém, para que se erigissem como autênticos valores humanos capazes de preparar uma Nação no sentido de seus superiores destinos.

Esse alguém foi uma mulher: D. Filipa de Lencastre, esposa de D. João I, que incutiu no coração de seus quatro filhos varões o culto das virtudes cristãs, a consciência dos deveres e o amor às grandes façanhas e aventuras cavalheirescas.

***

D. Filipa casou-se com o Mestre de Avis em 2 de fevereiro de 1387. Encontrou em Portugal, renascente dos tormentosos dias de D. Fernando e de D. Leonor Teles, uma atmosfera consoante ao seu espírito desabrochado em ambientes onde se cultivam os belos sonhos cavalheirescos.

Versada, por certo, nas letras medievais dos Trovadores e dos romances de cavalaria, a jovem rainha idealizara o tipo de homem perfeito segundo os modelos dos heróis por ela admirados pela bravura e talento militar. No país que tomara por Pátria, a donzela inglesa veio a conhecer Álvares Pereira, o Condestável, e os jovens de sua companhia, que se revelaram nas guerras contra os espanhóis, dignos êmulos das mais lídimas cruzadas.

Essa geração de Nuno Álvares, à qual pertencia o próprio D. João I, iniciava uma reação contra os costumes amolentados do tempo de D. Fernando, o Formoso, os quais culminaram pela decomposição moral da nobreza nos tempos de D. Leonor Teles, quando os prazeres da corte se elevavam acima dos deveres para com o “serviço de Deus”, que tinha sido no século anterior a preocupação suprema dos Reis e dos guerreiros.

É Camões quem, referindo-se a esse período de transição da vida nacional, assinala-o n’Os Lusíadas, dizendo:

“Depois de procelosa tempestade,
Noturna treva e sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de porto e salvamento…”

A procelosa tempestade foram as derrotas infligidas aos portugueses pelos castelhanos; a desmoralização dos costumes que se generalizara; a morte do Rei sucedido por sua mulher D. Leonor, amasiada com o Conde Andeiro e infiel aos superiores interesses da Nação; a revolta de Lisboa, com o assassinato do Conde Andeiro e infiel aos superiores interesses da Nação; a revolta de Lisboa, com o assassinato do Conde; novas invasões do Reino, o que tudo termina com a aclamação, pelas Cortes de Coimbra, do Mestre de Avis para suceder no trono o infortunado Fernando.

Realmente, após a “noturna treva”, quando D. João I organiza o governo com Nuno Alvares Pereira, João das Regras, D. Lourenço, Arcebispo de Braga, Lourenço Esteves e outros, imbuídos das mesmas ideias renovadoras, tem-se a impressão de que um dia novo traz, com a “serena claridade, esperança de porto e salvamento”.

***

Além do seu contato direto com o Povo, através das corporações de mestres e da Casa dos Vinte e Quatro, cujo presidente é elevado à dignidade de uma magistratura, o que constitui um dos aspectos revolucionários do novo Estado, buscando novos valores sociais nas classes populares ainda imunes dos vícios da nobreza antiga, D. João I e sua mulher entendem que o melhor processo de ensino é o magistério do exemplo.

Referem os cronistas essa atitude do Rei e da Rainha, resumindo-a João Ameal com estas palavras: “Outra característica primacial da Corte de D. João I é a modificação dos costumes num sentido de firme austeridade. O exemplo vem de cima: da família real a que preside a virtuosa rainha D. Filipa de Lencastre, cujo lar é perfeito modelo de amorável e disciplinada harmonia. A seu lado, D. João manifesta raras qualidades de equilíbrio e de bom senso, unidas a uma devoção fervorosa; traduz as Horas Monteria, mostra-se expoente respeitado da melhor conduta moral. Ambos educam os filhos à sombra das altas noções da justiça, do serviço do bem comum e das responsabilidades severas que impendem sobre os governantes. A ética da Realeza enriquece-se, ganha integral plenitude”.

D. João I resumiu todo o seu programa numa alegoria: um camelo (por ser o animal que transporta maiores pesos) com quatro fardos em cada qual se lendo estes dizeres: “temor del mal reger”, “justiça com amor e temperança”, “contentar corações desvairados” e “acabar grandes feitos com pouca riqueza”. “O conjunto” — diz Ameal — “forma a síntese profunda do duro ofício do Rei…”

O casal houve quatro filhos varões: D. Fernando, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, os quais cresceram respirando nessa atmosfera de virtude e de idealismo.

É de se imaginar os serões noturnos no palácio real. A Rainha D. Filipa, na sua nobre cadeira, rodeia-se de suas aias e açafatas. Os quatro Príncipes sentam-se ao pé dela, em altas almofadas. E, à luz dos candeeiros, é a própria soberana quem lê para que todos ouçam. Entre a variada leitura, certamente não há de faltar o Amadis de Gaula, já pelo que essa narrativa representou na romancística da Cavalaria, já porque o entrecho concebido por João Pires de Lobeira, trovador da corte de D. Diniz, no século XIII, tem agora seu continuador num descendente do poeta, o mui valoroso Vasco de Lobeira, que combateu ao lado de Nuno Álvares em Aljubarrota. Era, pois, uma novidade literária das mais interessantes por condizer com o espírito daqueles dias animados pelos exemplos do próprio D. João I.

Há nos romances de Cavalaria o culto de Deus, do Rei e da Dama eleita pelo coração do herói. A par da rude bravura dos que se lançavam nas batalhas, de escudo e lança, a esporear fogosos ginetes, havia a delicadeza das atitudes e gestos gentilíssimos com que os centauros das guerras e dos torneios homenageavam donas e donzelas, objetos de extremas deferências e varonil proteção.

Tais pensamentos e sentimentos criadores dos grandes feitos iam-se incluindo no coração dos Príncipes. A adolescência desabrochava em devaneios, que tomavam a forma condizente com o temperamento e vocação de cada um.

Ao chegarem os três filhos mais velhos à idade em que deveriam ser armados cavaleiros, eis que apresentam ao Pai estranha petição. Preparava o Rei um belíssimo torneio, segundo os costumes medievais, onde os príncipes tivessem ensejo, entre cavaleiros de toda Cristandade que acorreriam à festa, de mostrar sua capacidade e técnica de guerra, mediante as quais se habilitariam para a vigília d’armas e cerimônia ritual conforme as regras cavalheirescas. Os príncipes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique requerem do Pai seja substituído o torneio por uma guerra, de fato, que fosse vantajosa para o serviço de Deus e do Rei. E propuseram a tomada de Ceuta.

Convoca D. João I um conselho de teólogos e letrados, ouve seus guerreiros, aqueles para que digam se a empresa será “serviço de Deus”, estes para que se pronunciem sobre as possibilidades de êxito. Mas estando assente a procedência do pedido dos Príncipes, é entretanto D. Filipa quem dá a última palavra, aprovando o projeto, pois outra coisa não ensinará aos filhos senão o amor aos grandes feitos.

Uma semana antes da partida, uma grande dor fere o coração do Rei e dos Príncipes: a Rainha, atacada de mal incurável, agoniza e morre. Foi um momento decisivo na vida dos rapazes. Vendo que iria deixar este mundo, D. Filipa manda trazer numa salva de prata as espadas que deveriam cingir os dentro em breve cavaleiros. E, entregando-as, uma a uma, a cada um dos filhos, a cada qual dirige palavras cheias de conselhos e incitamentos à honra e à glória de bem servir aos nobres ideais. Era o extremo resumo de todas as lições ministradas nos suaves serões do Paço.

Os Príncipes juram cumprir quanto sua Mão lhes prescrevia. E, uma semana depois de sepultada D. Filipa, a armada portuguesa levanta ferros no Tejo.

E assim, com a conquista de Ceuta aos mouros, em território africano, foram os filhos de D. João I armados cavaleiros.

***

Do que foram esses Príncipes, fala o relato dos coevos.

D. Duarte sobe ao trono pela morte do Pai. Foi Rei cônscio de seus deveres. Do que aprendera de D. João e de D. Filipa é testemunho o livro que escreveu para educação de todos aqueles que exercem cargos de responsabilidade: o Leal Conselheiro. Já nas páginas do Livro da Ensinança da arte de bem cavalgar, expende estes conceitos que são atuais em todos os tempos:

“Do exemplo dos Senhores e dos Príncipes, como dito é, toda a casa ou reino filham grande exemplo em semelhante, e isso mesmo em o seguimento das virtudes, de que vejo ao presente, mercês a Deus, boa experiência. Que, por a muito bondade e virtude, que sempre viram em o mui virtuoso e de grandes virtudes, El-Rei, meu Senhor e Pai, e na mui virtuosa Rainha, minha Senhora e Mãe, os principais de sua casa e todos os outros do Reino, por graça que lhe foi outorgada, fizeram grão melhoramento em deixarem maus costumes e acrescentarem em virtudes”.

O Leal Conselheiro traz, ao mesmo tempo, conceitos sobre o que hoje chamamos Direito Internacional, na parte em que dá os fundamentos da guerra justa; sobre Direito Público e Constitucional, quando delineia toda a estrutura do Estado; de administração, quando se refere aos critérios econômicos de um bom governo; de teologia e de ética em muitas passagens; mas a constante, a nota que predomina, página a página, é a educativa, ou melhor, a que visa criar homens novos, pois D. Duarte sabe que nenhuma ordem social ou política pode dar bons frutos com a mentalidade utilitária e comodista que dominou nos últimos tempos de D. Fernando e D. Leonor Teles. Forjava-se, realmente, uma nova geração, aquela que deveria ser chamada “a ínclita geração”.

LEIA TAMBÉM  Educação

Em todos os tempos, entretanto, os “homens novos” encontram a resistência dos “homens velhos”, não no sentido cronológico, mas no sentido dos maus costumes que não querem ser substituídos pelos bons. Quem se chocou com a resistência foi o Príncipe D. Pedro.

Morrendo D. Duarte de peste, com 47 anos, deixou o primogênito com apenas 6. Por decisão das Cortes, D. Pedro assume a Regência do Reino, mas para que não houvesse dúvidas sobre sua lealdade, faz proclamar herdeiro daquela criança, D. Afonso, o seu irmão mais novo. A rainha viúva foi logo cercada de ambiciosos, de intrigantes, do tipo dos muitos que houvera nos tempos de outra D. Leonor.

O drama que viveu D. Pedro foi dos mais cruciantes. Ele representa o que havia de bom, de honesto, de rigorosamente probo, na sua geração; os seus adversários, criando-lhe as maiores dificuldades e situações insuperáveis, representavam o que havia de mau, de desonesto, de desleal, remanescendo impenitentemente numa época em que todo o esforço dos Príncipes era formar a nova Nacionalidade

Os homens superiores são, na verdade, superiores em tudo. Aos próprios acontecimentos do seu tempo, às próprias desventuras, à própria morte, ainda quando trágica, como a D. Pedro, no desastroso equívoco, que foi o combate de Alfarrobeira. Pois o que dele ficou não foram os altos cargos desempenhados, mas a sua cultura de homem viajadíssimo, benquisto em toda a Europa, onde realizou nas diferentes Cortes o trabalho diplomático indispensável à obra de seu irmão, o Infante Navegador; e, mais do que tudo, os seus trabalhos literários, entre os quais avulta a Virtuosa benfeitoria

Contitui-se esse livro, por assim dizer, um complemento do Leal Conselheiro de seu irmão D. Duarte. Pois se neste se acham delineados os deveres dos Reis, dos Príncipes, dos Grandes, os deveres recíprocos de Governantes e Governados, naquele se desenvolve um claro pensamento sobre as estruturas sociais, o mecanismo das relações humanas no sentido dos recíprocos benefícios de pessoa a pessoa, de pessoa à conceitos de Sêneca, o filósofo, com os preceitos do Evangelho. Como seu irmão, não se esquece de falar dos deveres dos grande para com os pequenos, dos Reis para com o Povo, como se vê no capítulo II de seu livro.

A Virtuosa benfeitoria é compêndio que serve a todos os Governantes de todos os tempos e todos aqueles a quem a Providência confiou altos cargos ou grandes haveres, os quais devem ser empregados em benefício dos demais.

O mais novo dos irmãos, o Príncipe D. Fernando, avultou em santidade, que essa era a sua vocação, desde tenros anos, quando se entregava a toda sorte de devoção e penitência. Em batalha ferida contra os Mouros, caiu prisioneiro diante de Tanger, sendo conduzido a Fez, onde ficou como penhor da praça de Ceuta cuja devolução era exigida pelos vencedores. Convoca as Cortes, decidem estas não restituir Ceuta aos Mouros, entendendo que a praça conquistada em serviço de Deus valia bem a vida de um Príncipe, mormente considerando-se que D. Fernando era homem de raras virtudes e resignação cristã, capaz de imolar-se pela Pátria e pela causa de Cristo. Por conseguinte, a menos que o seu resgate se fizesse por batalha ganha pelos portugueses aos sarracenos, a Nação preferia perder seu Príncipe a render-se entregando a praça conquistada.

Chegando essa notícia em Tanger, o Infante foi submetido aos maiores vexames e sofrimentos físicos. E, assim, consumiu-se lentamente, conforme descreve Duarte Nunes Leão, baseado nos cronistas da dinastia de Avis, que a ele se refere dizendo “como seu pai foi Príncipe assinalado em virtudes e sua mãe de grande perfeição e santidade, assim foi a criação deste Infante, junto a sua boa natureza, que desde a sua tenra idade foi inclinado a todo o gênero de virtude e logo deu mostras de se criar nele um grande santo”.

Apedrejado, cuspido no rosto, ultrajado com palavras injuriosas, forçado a trabalhos pesados de escravo, metido numa cela onde dormia acorrentado sobre pedras, dia a dia D. Fernando engrandecia-se aos olhos de Deus, pela humildade e paciência com que suportava tão duros tratos, que amenizava com as contínuas orações e contemplações; até que a inanição completa lhe facultou a palma do martírio, morrendo com belas palavras nos lábios.

Eram dessa estirpe os homens da “ínclita geração”.

E quando hoje folheamos os Flos Sanctorum de Frei Diogo do Rosário, onde entre os santos aparece o Infante com dolorosa biografia, verificamos que aqueles homens, criadores de um espírito nacional, só procuravam grande ou na ciência e nas letras, ou no heroísmo das batalhas, ou no martírio por amor de Cristo.

***

Mas é no Infante D. Henrique, o Navegador, que se polarizam todos os pensamentos, energias, fidelidade às tradições que vinham desde Afonso Henrique, idealismo superior, sonhos de glória e sentido de poesia de um Povo que renasce para entregar-se às prodigiosas aventuras no Oceano.

Tinha a castidade de D. Fernando, o humanismo de D. Pedro, o bom senso de D. Duarte, mas aos três se avantajava pela capacidade de visionar o Futuro e de abstrair das enfermidades da política, para se entregar, com sobre-humana fé, ao lançamento das bases de uma obra cuja construção final estava certo de que não seria para seus olhos.

Se D. Pedro, seu irmão, chocou-se contra os contemporâneos, porque o seu alto padrão moral não era compreendido pelos homens habituados às podridões de uma política mesquinha, que deveria desaparecer, o Infante Navegador chocou-se também contra esses contemporâneos porque o seu alto e esclarecido idealismo, baseado em conhecimentos científicos, não podia ser compreendido pela velha mentalidade.

O homem que vê o Futuro não convive com o Presente, antes integra-se no Passado. Só o Passado nos dá as coordenadas do Futuro e todo aquele que viver exclusivamente o “atual”, é incapaz de construir o “porvir”.

O infante D. Henrique estava convencido da missão da Nacionalidade, pois todos os Povos que se constituem em Nação tendem a uma finalidade, e essa finalidade procede das próprias origens de sua formação. Ora, a Nação Portuguesa nascera com o objetivo de dilatar a Fé e o Império. Mal fundada a Monarquia, D. Afonso Henrique inicia a reconquista das terras ocupadas pelos maometanos. Desce do Norte, toma Santarém e Lisboa. Seus sucessores completam a sua obra. Mas a dinastia de Avis já não tem o que conquistar na península, porque os Mouros estão contidos no sul da Espanha, a esta competindo a guerra a Granada. É preciso, portanto, para dilatar a Fé e o Império, passar à África.

Não basta, entretanto, lutar no setentrião do Continente Negro. Cumpre conhecer os mistérios do seu contorno. Procurar o caminho marítimo das Índias, do oriente, de onde procediam as riquezas que fortaleciam o comércio dos árabes, essa arma sutil de que eles se serviam para subornar os centros comerciais da Cristandade. E, depois… O Infante era versado nas letras antigas, instruído na ciência da astronomia e nos mistérios da geografia e tais conhecimentos lhe incutiram no espírito ideias mais grandiosas. Era o devassamento do planeta, a Boa Nova de Cristo levada a terras desconhecidas, por descobrir. Falava neles o temperamento, a vocação, o sentido, a aspiração universalistas, eucumênicos de uma Nação que adivinhava o seu destino histórico.

Como realizar, entretanto, os altos sonhos? De duas coisas carecia D. Henrique: uma mentalidade nova, capaz de o compreender; o dinheiro para poder realizar. A eterna harmonização dos contrastes que no século XVII Cervantes iria simbolizar em D. Quixote e Sancho Pança. Esse contraste de que se servem, até aos dias de hoje, os que lutam por ideais elevados, precisando de uma elite realizadora, mas não podendo prescindir do auxílio burguês, o qual nunca vem motivado por ideias nobres inacessíveis à sua mentalidade argentária, mas pelo interesse que porventura a causa possa fortuitamente oferecer.

Para obter o primeiro elemento, o Infante faz de sua casa em Lisboa uma verdadeira Academia. Convoca a mocidade. Só a mocidade pode compreendê-lo. Atrai professores estrangeiros, para instruí-la em ciências e técnica. E ele mesmo leciona. Não basta saber geografia, astronomia, matemática, arte de navegar; é preciso capacidade de sonho, amor à glória , moralidade perfeita, coragem sem limites. É um centro de cultura, a forjar os gigantes conquistadores do Oceano.

O segundo elemento busca-o D. Henrique ao assumir a direção da Ordem de Cristo, que substituíra os Templários em Portugal. A Ordem dos Templários, começando por ser de Frades Guerreiros, terminara constituindo-se no monopólio comercial do Oriente. Espalhada por toda a Europa, tornou-se depois verdadeira rede bancária, para transmissões de dinheiro e conversão de moeda. Os próprios reis eram dependentes dessa poderosa organização financeira, que lhes emprestava dinheiro. A Ordem de Cristo, também de freires cavaleiros, trazia o instinto comercial dos cavaleiros do Templo.

“O plano do Infante D. Henrique” — escreve Costa Brochado — “é de uma grandeza surpreende. Ninguém, em Portugal, acredita nas suas certezas e todos contrariam a política incipiente dos descobrimentos. O Estado, vencido pela opinião pública e carecido de recursos, não pode abalançar-se às aventuras que o Infante não cessa de defender. Só há um processo, e D. Henrique vê-o claramente: despertar nos Cavaleiros de Cristo o sentido comercialista dos Templários e transformar a Ordem na sede dos seus arrojados empreendimentos”. “O seu primeiro cuidado ao entrar no governo da Ordem, foi enriquecê-la ainda mais, conseguindo-lhe privilégios econômicos cada vez maiores. Em certa altura, a vida do infante e da Ordem interferem-se de tal forma que não é fácil distingui-las. Tudo o que o Infante possui é da Ordem e os cofres dela estão ao seu dispor”.

E a Ordem enriqueceu fabulosamente. Seria longo enumerar as isenções, os privilégios, as concessões, as regalias que o Infante foi conseguindo para ela, no curso de três reinados em que viveu tão arguto político. Sesmarias, coutos e granjas, comendas rendosas, senhorios e foros, direitos e concessões, a “mais rica região militar que nunca houve”, no dizer de Severim de Faria, tinha o rendimento de 250 mil cruzeiros e a senhoria de 21 vilas, além dos lucros das empreitadas que lhe eram exclusivas da construção de canais e moinhos, assim como das indústrias de tinturaria. Na verdade, Sancho está aparelhado para acompanhar D. Quixote… Mas assim como Sancho aspirava ao governo de uma ilha aqueles ascendentes da burguesia de hoje aspiravam o domínio do comércio original.

Com tais possibilidades materiais que visavam objetivos restritos, o Grande Sonhador retira-se, com a juventude que vinha preparando, para o promontório de Sagres. É o ninho das Águias do Oceano.

Visitei aquele lugar misterioso. O promontório avança para o Atlântico abrindo sobre as vagas um largo prato de pedra.

Ali, o Infante D. Henrique passava noites inteiras, até o romper da aurora, contemplando as estrelas, estudando seus movimentos, meditando sobre os segredos do Infinito e decifrando os enigmas das Cartas Celestes que serviriam aos moços que mandaria cavalgar o mar nas grandes rotas inaugurais do Novos Tempos.

As primeiras naus abrem as velas e partem para o Desconhecido, como grandes pássaros audazes. Começa a epopeia que ultrapassará todos os episódios da Ilíada, da Odisséia de Homero, da Eneida de Virgílio. Começa também a tragédia em que sucumbirão navios e marinheiros, dos quais nunca se teve mais notícia. Começa a conquista de novos territórios para o Reino de Cristo.

Alçam voo as águias do Oceano. São os jovens Zarco e Tristão Vaz, em busca da Guiné, atingindo a ilha de Madeira; é Gonçalo Velho, descobrindo os Açores; é Gil Eanes, dobrando o Cabo Bojador; é Antão Gonçalves, indo ao Rio do Ouro; é Nuno Tristão, ultrapassando o Cabo Branco; é Diniz Dias, passando o rio Senegal; é Perestrelo, é Garcia Homem, é Diogo Gil, é Lançarote, é Baldaia, é Diogo Afonso, é Diogo Gomes, é Gonçalo Pacheco, toda uma geração que se levanta, iluminada pelos sonhos, esclarecida pela ciência, adestrada pela técnica, sobretudo vivificada pelo Gênio que, no alto do promontório sagrado, opera a miraculosa transformação do seu povo para que cumpra, entre os povos, a sua missão.

***

Para uma Nacionalidade como o Brasil que, nestes meados do século XX, encontra-se perplexa diante do enigma de seu destino; para um Povo, como o brasileiro, que se deixa corroer pela desilusão e abater-se pela tristeza, sentindo nas suas estruturas vitais a perniciosa influência do materialismo que domina o nosso tempo; para uma reduzidíssima elite nacional que, em nossa Pátria, aflige-se e angustia-se contemplando a deterioração da sociedade, a predominância dos maus costumes, a perda do senso moral: essa página da História Portuguesa, que é também a nossa, vale como uma sugestão à única providência que devemos tomar para salvar-nos.

O que se fez, desde o alvorecer do reinado de D. João I, foi reconstruir o Homem que vinha sendo decomposto e aniquilado pela ausência do Espírito que vivifica os homens e as Nações.

De nada valem regimes, reformas constitucionais, medidas legais, planejamentos econômicos, financeiros, administrativos, se não pusermos, na base de tudo, as energias puras da Pátria representadas pelo Homem Novo.

Mas o Homem autenticamente novo há de ser livre de todos os vícios que envelheceram os velhos e os tornaram incapazes.

Se, portanto, levantarmos a Mocidade, como fez o infante D. Henrique, poderemos iniciar o Grande Poema da Grande Pátria.

E um dia se poderá dizer desta hora tristíssima que passa e da hora jubilosa que virá, as palavras da estrofe camoneana:

Depois de procelosa tempestade,
Noturna treva e sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de porto e salvamento…

X