Nada vale para a dignidade, a honra, a soberania, a independência, a grandeza e a glória de uma Pátria serem seus filhos muito instruídos, mas inteiramente destituídos de capacidade moral. Não é pelo fato de possuir cientistas, literatos e artistas que uma Nação se ergue no esplendor da sua afirmação e da consciência do seu destino histórico. O que engrandece os povos e os torna livres da escravidão sob o domínio estrangeiro é o sentimento comum da dignidade nacional, que decorre do sentimento pessoal da dignidade inerente a cada membro da sociedade política de que faz parte e à qual damos o nome de Nação.

Esse sentimento de dignidade origina-se da consciência da moralidade. Cumpre, entretanto, que a moralidade seja definida em termos claros, precisos e nítidos, que não admitam mais de uma interpretação.

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Não há, não pode haver autodidatismo em matéria de moral. As regras das ações derivam de princípios certos de moralidade, pois se decorressem de pressupostos incertos, seriam tão variavas e tão numerosas que levariam à anarquia intelectual, à desordem dos sentimentos e ao entrechoque das paixões armadas de sofismas. Aqueles princípios certos se transmitem de geração a geração. Procedem de raízes históricas. Não podem admitir reformas, nem retificações, nem substituições. Podemos compará-los ao que há de essencial na estrutura, na forma, na euritmia do corpo humano; pois se neste as células se renovam, se neste a estatura se desenvolve com a idade e com a mesma idade se deprime, jamais a personalidade deixa de ser a mesma e jamais se decompõe a imutável geometria das expressões fundamentais do ser físico. Menino, adolescente, jovem ou homem na plenitude da maturidade ou no crepúsculo da senectude e finalmente de decrepitude, a pessoa é a mesma pessoa e as sucessivas fotografias dos álbuns familiares nos revelam, desde a criança ao velho, a sucessão de uma diversidade à qual não faltam os índices evidentes de uma unidade absoluta e de tal forma que, olhando a fotografia do infante, logo a reconhecemos como pertencente ao retrato do adulto. Essa permanência da unidade intrínseca através das manifestações extrínsecas do desenvolvimento corpóreo constitui aquilo que é indestrutível no ser: a sua personalidade. Ora, se assim é no que se refere à expressão material do Homem, ou seja, o seu corpo, muito mais o é no que concerne ao seu espírito. E, se a união social dos seres humanos, em comunidades políticas diferenciadas historicamente da totalidade dos povos, pressupõe uma origem e um destino comum dos seres humanos que se agruparam, temos de concluir que, tanto aquela origem como este destino, perderiam a significação, se as atitudes e atividades, do grupo humano a que chamamos Pátria, não exprimissem um mínimo de identidade substancial inerente a cada membro da sociedade cívico-política e comum a todos.

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Se não podemos negar que a criança seja o adulto e que o adulto seja o velho, também não podemos negar que a Nação, séculos antes ou séculos depois seja a mesma, se ela conservar através da sua história aquela euritmia essencial da personalidade nacional. E quando uma Nação não mais apresenta aquelas características da sua identidade, podemos estar seguros de que a Nação desapareceu, sendo substituída no espaço geográfico, atualmente ocupado por outros, cujas normas de ação se contradizem com a personalidade nacional anterior.

E assim morrem as Nações. E assim têm morrido no transcurso dos séculos. E quem folhear um desses atlas históricos que apresentam as cartas sucessivas dos Impérios, das Monarquias, das Repúblicas desaparecidas na voragem dos tempos, verificará que esse desaparecimento foi precedido de uma distrofia moral, que levou à derrocada as estruturas da personalidade ético-política. Nem foi de outro modo, senão pela confluência dos deuses estrangeiros e pela proliferação das escolas filosóficas gregas, que o Império Romano entrou nas crises que precederam a sua morte; os últimos Césares tentaram criar uma nova base de unidade no Cristianismo, porém as ondas subsequentes das heresias do III ao IV séculos e, finalmente, a desordem intelectual de Bizâncio, facilitaram a invasão dos bárbaros. E se avançarmos no tempo, iremos encontrar o mesmo fenômeno de dissolução moral precedendo o domínio dos árabes, no Império Visigótico.

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Sobre os escombros de uma Nação constroem-se outras. Não importa que subsistam, individualmente, os tipos étnicos da Nação desaparecida, mesclando-se ou isolando-se na nova sociedade política; o fato incontestável é o desaparecimento da Nação que perdeu a sua personalidade por haver perdido o tipo social marcante da sua personalidade.

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O fenômeno contemporâneo de povos como os da Europa Oriental ou o daquele tão tradicional Império, como é o chinês, caírem sob o domínio estrangeiro dissimulado pela implantação de um regime que se inspira em ideias contrárias à tradicionalidade nacional, demonstra que tais povos já estavam mortos, já não existiam como grupo diferenciado, como personalidade moral e política distinta.

O fundamento, portanto, da personalidade nacional de um povo é constituído por um conceito de moralidade imutável. E quando um povo começa a perder o senso do Bem e do Mal; quando procura em novas fontes as normas para as suas ações; e quando, finalmente, em meio às entrechocantes doutrinas, opta pelo desprezo a todas, eis que esse povo principia a morrer, lenta ou aceleradamente. Nem era por outro motivo que os Profetas de Israel clamavam, uns após outros, no intuito de impedir que a Nação aceitasse os ídolos estrangeiros ou praticasse os atos tidos como lícitos pelos povos convizinhos. O nosso Alberto Torres chama a atenção dos brasileiros para esse fato, repetindo as palavras que ressoavam continuamente aos ouvidos de Israel: “Não terás outros deuses…”

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Educar um povo é repetir-lhe mil vezes aqueles princípios certos, aqueles princípios imutáveis que constituem a base da moralidade de uma Pátria. São esses princípios que inspiram os atos humanos na vida intelectual, na vida administrativa, na vida política. Fácil é ao educador (que devem ser não apenas os professores, mas todos os homens públicos, todos os que exercem magistério pela palavra ou pela pena) esclarecer o povo sobre as normas de seus atos, se esse educador se inspira na imutabilidade dos princípios geradores daquelas normas. Tais princípios encontrarão natural ressonância na alma de todo o povo que ainda não entrou totalmente na crise agônica procedente da morte histórica das Nações. Porque esses princípios, no íntimo do sentimento popular, ainda vivo, harmonizam-se com a essencialidade anímica de cada um dos componentes da comunidade política.

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Princípios certos hão de basear-se em terreno de certeza. Esse terreno de certeza não pode ser a areia movediça das hipóteses científicas, das teorias que se revezam no cartaz da notoriedade, das doutrinas filosóficas constantemente servidas por um ecletismo que pretende ser original, compondo a sua trama com as misturas de conceitos, elucubrações, interpretações e sofismas apanhados no mercado universal das ideias, principalmente nessa feira de disparates que referve, desde o século XVII até nossos dias, reproduzindo em larga escala o pedantismo grego que deu por terra com o Império Romano.

Os princípios certos vêm de Deus. E se o bom senso da humildade (ao contrário da megalomania orgulhosa dos chamados sábios) recebe-os com a alegria dos que encontram o Caminho no meio da confusão, também o secreto raciocínio do nosso espírito, desprendido dos interesses passageiros do egoísmo e das paixões delirantes, confere a sua autenticidade em face da própria intuição humana que gerou, mesmo entre os pagãos da Antiguidade, o Direito Natural.

Já Farias Brito, em A Verdade Como Regra das Ações, demonstra não ser possível traçar normas morais sem um conceito de verdade sobre o Universo e o Homem. Ora, a verdade é uma só, e não uma variedade, porque, se existissem duas verdades, nenhuma seria verdadeira.

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A verdade verdadeira há de ter Deus por única fonte. Essa verdade é a própria vida do espírito e o espírito, por sua vez, é a vida da personalidade. E assim como o corpo se acrescenta com o evolver dos anos e troca as suas células no curso do tempo, sem que perca o sentido da sua expressão e a estética da sua conformação, também o espírito pode enriquecer-se de conhecimentos científicos, pode alterar grande parte de suas atitudes em consequência do saber adquirido, mas não pode, de forma alguma, deixar de ser o que é em si mesmo, a menos que se escravize aos caprichos dos sentidos e até aos caprichos da inteligência degenerada pelo hábito dos sofismas com que a si mesma se ilude para justificar os vícios.

O criminoso é escravo do seu crime, o pecador impenitente é escravo do pecado, o homem imoral é escravo da sua imoralidade. Toda libertação vem do espírito, pela predominância das verdades indestrutíveis, das verdades eternas, que exercem o seu império sobre as tendências más da criatura humana.

Esse pensamento deve ser o primeiro de todos para quem se abalança na empresa da educação de um povo.

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