Nenhum dos nosso patrícios pode estar satisfeito com a situação atual do Brasil e do mundo. Todos os problemas estão em aberto, governantes e governados mostram-se descontentes uns com os outros. As recíprocas recriminações multiplicam-se. O número de críticos é muito maior do que o dos realizadores. Os créditos de confiança cada vez são mais limitados em favor daqueles que pretendem fazer alguma coisa. A dúvida impera em todos os espíritos. E, nesse terrível atmosfera, proliferam as lutas estéreis, esgotando os nervos em intermináveis crises e abrindo campo ao germe da desordem.

Cumpre-nos, diante desses males, pesquisar as suas causas. Examinando bem a fundo a questão, veremos que as causas reduzem-se a uma causa. O mundo sofre hoje (e o nosso país de modo tão evidente) de uma crise de autoridade e de responsabilidade.

Quando digo “autoridade”, estou vendo os homens superficiais a supor que me refiro a “governo”, a “Estado”, a “regime”, a “ordem pública”. Não; a autoridade de que falo é a decorrente de expressão dos valores legítimos de competências específicas. Ela pressupõe uma hierarquia de assuntos, de conhecimentos e de técnica, estabelecendo não apenas a classificação gradativa dos temas hoje propostos às nossas angústias, mas também conferindo poderes aos mais capazes nos limites que lhe são próprios.

Há dias, em São Paulo, tive oportunidade de conversar com um dos homens mais interessantes e esclarecidos da geração imediatamente anterior à minha e impressionou-me a maneira como ele principiou a tratar os problemas que versamos durante mais de três horas. Estava eu diante de um economista ilustre, um polígrafo, um brasileiro com rara capacidade administrativa e, sobretudo, um espírito universal, cuja cultura abrange as atividades intelectuais de todos os povos. Pois bem; esse homem principiou o primeiro capítulo da nossa palestra, que em seguida se desenvolveu através dos mais variados temas econômicos, sociológicos e políticos, perguntando-me se eu não achava errônea e nociva a concepção que se forma hoje a respeito da criança moderna em relação à criança de todos os tempos. E, antes que eu lhe respondesse, acrescentou: “A criança de hoje é absolutamente igual à de ontem e à de sempre; o erro está em se antecipar à idade conhecimentos da vida familiar e social que determinam verdadeiras deformações psicológicas, pela apreciação de assuntos não condizentes com a capacidade de juízo e raciocínio da quadra pueril”. E comentou exemplificando: “Os pais, ou os adultos da família, discutem hoje na presença das crianças fatos relacionados com a economia doméstica e até com dissensões dos cônjuges ou dos parentes; essas crianças percebem mal, interpretam mal, julgam mal e assim se habituam, quando atingida a idade adulta, a inverter a hierarquia das competências em matérias as mais diversas; desaparece hoje a autoridade dos pais e dos mais velhos, e amanhã desaparece todo o princípio da ordem social.”

A observação era profunda, sob todos os aspectos. Realmente, ela nos oferece o fio pelo qual conseguimos penetrar todo o labirinto da desorganização moderna. Compreendemos o motivo pelo qual desprezamos a experiência dos mais velhos, julgamos incapazes e decadentes, inaptos para resolver os problemas da atualidade, justamente aqueles que atingiram a plena maturidade cerebral, a completa formação do seu espírito; e compreendemos porque os povos chamados “novos” desprezam as formas de cultura e de civilização milenárias, rindo dos séculos, rindo da História, como se eles — os ingênuos — tivessem conquistado em poucos anos algo que se possa comparar ao que foi adquirido numa longa marcha humana, através de dilatados períodos históricos; e, ainda, compreendemos os motivos pelos quais as especializações científicas (e até as especializações da técnica…) pretendem tornar-se centros do mundo, transformando em princípios gerais, impositivos, restritas normas de meros processos.

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Desaparece, dia a dia, a categorização e a hierarquia dos valores. Desaparece, já não digo o “princípio”, mas o sentimento da autoridade, a sua compreensão como fundamento de toda a ordem. Desaparece a responsabilidade, uma vez que a competência para o seu exercício pode ser improvisada por um golpe de aventura ou pela invenção de um parafuso a aperfeiçoar o instrumento. E os povos vão caindo na confusão e na anarquia.

Essa anarquia caracteriza-se por atitudes as mais disparatadas. O físico pretende resolver questões teológicas; o médico dá lições de direito e o advogado de engenheiro; o alfaiate mete-se a sapateiro e o sapateiro a relojoeiro e o jornalista pontifica em todas as matérias. Os moços, como escreveu Rui Barbosa, “campam de velhos” e os velhos, abdicando da dignidade de sua experiência, ficam a servir de instrumentos aos despautérios dos insensatos. É a crise absoluta da autoridade. Como resultado, a ausência da responsabilidade.

Todos sabem tudo e ninguém sabe nada. Todos são autoridade, mas ninguém é respeitado. Todos assumem ares de responsáveis e ninguém cumpre os deveres da arrogada competência. Todos governam e ninguém obedece. Todos criticam e ninguém faz. É a desordem, a desonestidade, a loucura.

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Dentro dessa confusão, o sentimento doloroso da decadência. Não havendo mais a hierarquia dos valores, que deve principiar pelo valor do Espírito, o predomínio é o da força bruta. Manda quem pode: o mais rico, o mais forte, o mais audaz, aquele enfim que por circunstâncias puramente ocasionais possui os elementos materialíssimos com que se exerce o predomínio pelo uso dos recursos técnicos. Esse totalitarismo dos que mais podem cria uma mentalidade fatalista que submete os mais puros valores da personalidade humana ao jogo dos triunfadores vazios. E aquela admiração pela Força, pelo poder físico a imperar nos territórios morais, admiração condenada pelo Papa Pio XI quando a apontou como o supremo mal do nazismo, torna-se o magnetismo empolgante a preparar a psicologia específica dos conformados, dos inermes rebanhos nacionais que se irracionalizaram no automatismo dos gestos, das atitudes e dos delírios sonambúlicos.

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As gerações de hoje nascem velhas. Não tiveram infância nem juventude, porque não conheceram a hierarquia dos assuntos relacionados com as sucessivas quadras do desenvolvimento. São frutas verdes, de amadurecimento forçado em estufas onde muitas vezes, em vez de amadurecer, apodrecem. São gerações tristes, com a noção de que, em chegando aos trinta ou quarenta anos, estarão velhas. São gerações fatalistas, incapazes de reagir contra os agentes escravizadores, antes conformando-se ao seu domínio.

As multidões, mecanizadas pelos hábitos da preguiça mental, longamente estimulada pelos processos deformadores das historietas em quadrinhos e dos títulos berrantes das gazetas, movem-se ao sabor do rádio e dos cartazes produzindo a panaceia antidemocrática e despótica dos votos das massas, que guindam ao poder os tipos mais semelhantes e conformes à sua mentalidade ignara. E, então, temos nos postos administrativos a incultura e a irresponsabilidade travestida de improvisada sabedoria. Quanto aos parlamentos vemos neles questões de direito discutidas por ajudantes de pedreiros, questões de economia por poetas e questões pedagógicas por merceeiros.

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A isso se chama democracia, governo do povo, regime das liberdades, quando deve chamar-se “ignarocracia”, governo dos tolos, regime da opressão do bom-senso pela estultice dos contemplados na roleta das urnas. E não é para admirar-se que todos os problemas graves da Nação fiquem insolúveis e que tudo se espere do estrangeiro. Andam todos com os olhos no que fazem os líderes políticos mais favorecidos pela propaganda das agências telegráficas e das revistas ilustradas; andam todos rebuscando frases pronunciadas em língua exótica e se embasbacando diante de conceitos acacianos tidos por novidades superfinas porque saíram da boca de algum figurão internacional. Esquecem-se os que assim procedem de que lavra, também, no mundo, essa enfermidade do século que se origina da subversão de todos os valores, da confusão das competências, da desordem geral dos espíritos.

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Mais do que nunca, o nosso problema fundamental (problema do Brasil e do mundo) é o problema da ordem. Mas a ordem pressupõe hierarquia dos assuntos e das competências, numa palavra, a restauração da autoridade e da consciência das responsabilidades.

O envelhecimento precoce do mundo, evidenciado na incapacidade humana de solucionar as questões vitais da humanidade, só pode ser evitado, enquanto é tempo, mediante o ressurgir das forças criadoras de cada Nação e, dentro destas, de cada homem. Pois juventude significa, não medida cronológica, idade tabelada pelo calendário, mas poder imaginativo e volitivo, determinando a criação de formas renovadas da expressão social, pelas quais se perpetua a essencialidade imutável do princípio vital e das permanências humanas nos indivíduos e nos povos capazes de conservar o esplendor da sua energia anímica.

Um homem cronologicamente velho pode ser espiritualmente moço, ao passo que um homem ainda jovem, pela idade, pode ser um velho pelo espírito, isto é, pela incapacidade criadora e de reação contra a estandardização dos tipos sociais e do estilo de vida imposta pelos detentores dos meios mais eficientes de propaganda. E isso se dá também com as Nacionalidades. Uma Nação pode ter sido fundada recentemente, o seu território pode ter sido povoado em poucos séculos, sem que entretanto seja uma Nação jovem. Se ela se conforma com o modo de ser de outros povos, é porque não possui faculdades de autoconstrução, de afirmação e expressão originais. Ora, o que significa juventude é justamente esse poder de crescimento harmônico, em que o indivíduo assimila subordinando as novas células à euritmia personalizadora do seu próprio ser; numa palavra, juventude é capacidade de manutenção do estilo próprio através do processo de renovação constante. Por conseguinte, quando um povo começa a viver de imitação, quando um indivíduo principia a submeter-se às formas sociais e ao teor de vida engendrados por outros, esse povo ou esse indivíduo perderam a energia vital e, por conseguinte, envelheceram.

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Para mim, a medicina primordial de que necessitamos nesta hora trágica do mundo, é a da recuperação da juventude dos indivíduos e dos povos. Será essa juventude que poderá restaurar o sentido da autoridade e da responsabilidade, a hierarquia dos valores, a ordem nos espíritos como fundamento de toda ordem social e internacional.

Que poderemos esperar do Brasil e do mundo, se às novas gerações continuarem a ser educadas para a mecanocracia, que é a forma mais terrível e detestável do totalitarismo que hoje impera no mundo? Como esperar algo do futuro, se fabricamos homens em série, como automóveis e relógios? Há hoje um desequilíbrio cada vez mais acentuado nisto a que chamamos “civilização”; esse desequilíbrio origina-se do fato de, ao mesmo tempo que alarga seus domínios o poder criador da técnica, restringe-se, anula-se o poder criador dos ritmos sociais condizentes com as novas circunstâncias impostas à vida humana. A sociedade humana involui moralmente, enquanto evolui tecnicamente.

Assistimos ao espetáculo degradante da progressiva atrofia e anulação do Homem. O Homem avilta-se, destrói-se. Julga ser um gigante porque produziu a Máquina, o vasto instrumental do experimentalismo e da pesquisa científica, os meios de construir e destruir. Mas na realidade torna-se um títere que não exerce governo sobre os seus próprios movimentos. Quanto mais domina a natureza exterior, menos orienta, administra e governa a si mesmo.

Urge, pois, como preliminar de qualquer solução aos angustiosos problemas que afligem este século, reeducar o Homem, restaurar-lhe a dignidade, reacender nele a chama da juventude criadora. Essa reeducação terá por base estes dois termos: autoridade e responsabilidade.

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