Se observarmos a vida brasileira no curso da nossa história, verificamos que os momentos de construção foram sempre fugazes e restritos apenas a certas zonas da opinião pública, ao passo que os momentos de destruição abrangeram largas áreas de tempo e de espíritos.

Seria longo rememorar a intermitência desses período positivos e negativos, desde a Independência à Regência, desde está à maioridade, e depois até à guerra do Paraguai, e a questão militar, e a República, e nesta os episódios nos sucessivos quatriênios. O que se evidencia, à primeira vista, quando nos demoramos a apreciar o processo de formação da opinião pública, em todos os momentos que poderemos chamar sensacionais da nossa existência de povo, é o prazer do nosso povo quando se trata de destruir a reputação dos nossos homens públicos. Uma campanha de caráter construtivo, seja no campo das realizações materiais, seja na esfera mais elevada do reerguimento moral, interessa profundamente a poucos; e, quando logra interessar superficialmente a muitos, atingindo mesmo a expressão de um movimento de amplitude, o fenômeno é passageiro, carecendo da força mantenedora da continuidade. O esforço, exigindo a mobilização psicológica das energias nobres das personalidades, dentro em breve fatiga e exaure. Mas, se se trata de uma campanha de caráter destrutivo, que traga às massas populares o excitante do escândalo, despertando os instintos inferiores, estes agem sob as aparências de aspirações idealistas, mantendo o tônus do interesse e a infatigabilidade das atenções e dos comentários.

Tem-se a impressão de que o nosso povo se sentiria imensamente infeliz se não tivesse, para o seu deleite, o espetáculo frequente das imoralidades administrativas, processos ruidosos onde alguém se faça o alvo dos libelos fulminantes, inquéritos pontilhados de peripécias em que se possa acompanhar minuciosamente a degradação dos indiciados, até ao ponto em que a sensualidade da plateia logre atingir a sublimação dos espasmos.

Não entremos no mérito dessas questões cujo simples enunciado revela a degradação de um povo. Nem cometamos a injustiça de negar aos investigadores de tais meandros o mérito de, pelo menos, evidenciar a uma sociedade decaída os índices de sua própria miséria. O que queremos tornar claro é isto: o povo brasileiro tem o prazer sádico da destruição.

Esse prazer se encontra em todas as manifestações da vida quotidiana, desde a volúpia com que se rasgam a gilete os estofos das poltronas nos cinemas, ou a canivete se escalavram os bancos das praças públicas, ou se riscam os elevadores, ou se emporcalham os trens e os bondes, até à volúpia mais refinada com que, nas rodas elegantes ou plebeias, às mesas dos bares ou das boates, no trânsito das lotações ou nas salas fidalgas, se comentam reais ou hipotéticos desfalques, negociatas, adultérios, malversações de dinheiros públicos, protecionismos vergonhosos ou indignidades políticas.

O nosso povo se esquece de que os índices expressivos da vida familiar, social, comercial, administrativa e política procedem dele mesmo, desse mesmo povo cuja decadência permitiu a existência de tudo o que é mau. E nesse próprio deleite, a que se entregam milhares de assistentes das sórdidas comédias e tragédias do teatro de fantoches a que se reduziu a vida brasileira, nesse próprio deleite existe, subconscientemente, uma secreta afinidade com a própria essência do mal.

A sucessividade de escândalos e de inquéritos que assinala a vida pública do nosso país nestes últimos tempos; a quantidade de transações e de facilidades que não chegam à tona das inquirições mas são do conhecimento público; o desregramento de vida de uma sociedade inteiramente podre; a irresponsabilidade geral que se manifesta desde o alto funcionalismo até aos contínuos de repartição, e desde os chefes de indústria e de comércio até aos empregados e operários, e desde os professores aos alunos, nos estabelecimentos de ensino; esse reino da propina, da gorjeta, da chantagem e das acomodações indecorosas, tudo isso por desgraça nossa, em vez de constituir motivo para uma atitude de restauração dos valores morais e de decidida construção nacional, ao contrário, não passa de objeto de deleite e de volúpia, e nada mais.

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Examinando pelos processos psicanalíticos (pois como processo podemos aceitar, até certo ponto, as observações de Freud) notamos que o nosso povo goza os males de que sofre, encontrando, na consideração deles, uma válvula de expansão pela qual se libertam os vícios recalcados por condições específicas de personalidades insuficientes tanto para o bem como para o mal.

O fato positivo, o fato incontestável, é que as grandes campanhas lançadas no sentido de mobilizar as forças nobres ainda vivas no seio da Nação para uma obra afirmativa e construtiva das personalidades e da Pátria, não consegue a adesão de um povo que se viciou à beira dos brejos, preferindo a água suja à água pura e límpida que escorre das alturas das serras onde há oxigênio para os pulmões e amplitude de horizonte para os olhos da alma.

Todos os nossos movimentos políticos são de caráter negativista. Vota-se no sr. Getúlio Vargas, não para afirmá-lo, mas para negar o sr. Eurico Dutra. Em São Paulo, o povo votou para prefeito no sr. Jânio Quadros, não para afirmá-lo, mas para negar ao Governo Federal e ao Governo Estadual a moção de confiança. Aplaude-se a campanha do sr. Carlos Lacerda, não para que ela sirva de pretexto para um movimento nacional de regeneração dos costumes, mas pelo simples prazer de castigar aqueles que ousaram atos cuja prática, no íntimo, muitos desejariam executar. E se algum homem público é acusado, justa ou injustamente nesta ou naquela ocasião, o libelo provém muitas vezes do despeito, tornando-se um sádico prazer de destruir, sem nenhuma preocupação de construir.

Donde concluo que, se existem escândalos é porque a nossa sociedade degenerou; se os homens públicos são maus, a culpa principal cabe ao povo que os elegeu e que os elegerá novamente, rejeitando todo aquele que falar a linguagem da verdade e da sinceridade. Ninguém planta uma árvore em terreno impróprio. Cada espécie requer o seu habitat. Por conseguinte, se produzimos tal flora é porque temos criado condições de solo e de clima propícios ao seu desenvolvimento.

Os escândalos são apenas sintomas de uma enfermidade. Deve ser atacado pela raiz. E é por isso que, nesta hora dolorosa da Nação, venho apelando para a Juventude da Pátria. A geração precedente está materializada, tornou-se apática e conformista. Estragaram-na.

Urge um movimento nacional construtivo, que parta da mocidade, que é a última esperança do Brasil. Esse movimento deve começar dentro de cada jovem, mediante uma revolução interior decidida. Temos de nos entregar ao ascetismo de uma atitude heroica. Atitude de renúncia, de sacrifício, atitude de mística grandeza. Criar um espírito de luta. Traçar um caminho seguro para Deus. Sobrenaturalizar todos os atos, todas as atividades sociais a fim de que os paladinos da grande cruzada não se apeguem ao que é material, contingente, efêmero, superficial.

O nosso povo ainda guarda reservas de honorabilidade e de idealismo. Essas forças estão adormecidas. Cumpre despertá-las.

Tiremos a Nação da beira do pântano onde as emanações pútridas a envenenam atacando-lhe os centros nervosos da mobilidade. Levemo-la para a montanha, para as altitudes onde o Homem se torna dominador de horizontes.

Essa a missão dos moços. Essa a mística salvadora do Brasil.

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